28 Fevereiro 2025 | Renata Vomero
Análise Oscar: As chances do Brasil na maior premiação do cinema e os favoritos à estatueta
Conversamos com especialistas da indústria sobre o panorama desta edição do Oscar
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Talvez você viva em outro planeta ou dentro de uma caverna, mas, se não for o caso, com certeza faz parte do grupo interessado - para não dizer obcecado - nesta edição do Oscar, que acontecerá no domingo (2), em pleno Carnaval. O maior responsável por toda essa excitação, sem dúvida, é Ainda Estou Aqui (Sony), indicado em três categorias (Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Filme Internacional). Além disso, polêmicas aqui e acolá, outras premiações da temporada e uma salada de possibilidades também adicionam camadas a essa exaltação. Publicidade fechar X
Para o Brasil, a 97ª edição do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas já é histórica independente de levarmos a estatueta ou não. Pela primeira vez, um longa brasileiro é indicado a Melhor Filme, é a segunda vez que somos indicados em Melhor Atriz - mãe e filha segurando essa coroa, o que duplica a importância desses marcos - e figuramos entre os favoritos para levar Melhor Filme Internacional.
E se tem algo que marca este Oscar, sem dúvida, é a falta de favoritismo, em especial na categoria principal. Conclave (Diamond) vem sendo aclamado em algumas premiações, como o Bafta e SAG Awards, já Anora (Universal) venceu os principais prêmios dos sindicatos e o Spirit Awards. O Brutalista (Universal) também fez bonito na noite do Globo de Ouro e Bafta. Muitos desses prêmios não contavam com Ainda Estou Aqui nas categorias principais, com exceção do Globo de Ouro, no qual levamos lindamente o prêmio de Melhor Atriz, o que colocou Fernanda Torres entre as mais cotadas para levar a estatueta. Mas a verdade é que não sabemos, com nenhuma certeza, os premiados de 2 de março, uma pena para quem gosta de fazer bolão - ou até mais divertido, dependendo da perspectiva -, mas o que torna essa edição definitivamente elegível para figurar entre as mais surpreendentes e impactantes da história. A expectativa, ao menos no Brasil, é gigante!
Mas, clima de Copa do Mundo à parte - desculpa, Fernanda, nós vamos torcer e muito -, quais as chances do Brasil levar alguma - ou algumas estatuetas - para a casa? Como a campanha do filme está sendo trabalhada para nos levar a esse objetivo e sua importância, como um todo, para a indústria brasileira? Além, claro, de quais são os favoritos deste ano? (Os indicados podem ser vistos aqui).
Essas foram algumas das perguntas que fizemos para especialistas entrevistados pelo Portal Exibidor. São eles: Aline Diniz, comunicadora, apresentadora do Canal Entre Migas e do Podcast Falando de Nada e comentarista da transmissão do Oscar pelo TNT e Max; Barbara Demerov, jornalista, crítica de cinema e apresentadora do Podcast 1 Livro, 1 Disco, 1 Filme; Cyntia Calhado, jornalista, crítica, curadora, pesquisadora e professora do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM; e Waldemar Dalenogare, crítico de cinema, pesquisador brasileiro e comentarista da exibição do Oscar na Globo.
Confira:
Como você avalia a campanha de "Ainda Estou Aqui" para o Oscar?
ALINE DINIZ: Acho que a campanha está excelente, melhor do que qualquer outra já feita. Fernanda Torres e Walter Salles não param em solo brasileiro há meses e dão entrevistas interessantes e carismáticas a vários veículos importantes na indústria, o que traz uma relevância grande para o filme considerando um cenário internacional.
BARBARA DEMEROV: A campanha foi impecável do início ao fim. Desde a estreia no Brasil até agora, o que vemos do Walter Salles e, especialmente, da Fernanda Torres é uma seriedade muito admirável para com o filme e para a memória da Eunice Paiva e do Rubens Paiva, além, claro, de um respeito pelo trabalho do Marcelo Rubens Paiva. É uma campanha muito centrada na obra em si, é muito incrível ver como o cinema brasileiro está projetado lá fora. As pessoas passaram a assistir muito ao filme nesses últimos meses, principalmente em janeiro e fevereiro, que calhou muito bem para a campanha do Oscar, para quem estava votando no Oscar, porque a janela de votação coincidiu muito com a estreia do filme e o aquecimento das salas de cinema nos EUA.
CYNTIA CALHADO: Nenhum outro filme brasileiro teve uma campanha internacional tão bem-sucedida. O trabalho da Sony Classics, uma das maiores distribuidoras internacionais, foi fundamental nesse processo. A trajetória começou com a estreia no Festival de Veneza, onde o filme conquistou o prêmio de Melhor Roteiro. Em seguida, percorreu um circuito de festivais importantes, incluindo Toronto, Nova York e Londres, além de exibições especiais nos Estados Unidos com a presença do elenco e de Walter Salles. Fernanda Torres também participou de diversos programas norte-americanos, ampliando ainda mais a visibilidade do filme. Todo esse esforço culminou na indicação ao Oscar, resultado direto dessa campanha estratégica e bem-articulada.
WALDEMAR DALENOGARE: Esta é uma campanha histórica. Por muito tempo o Brasil ficou na máxima de "os filmes são bons, mas as pessoas não assistem" - no que diz respeito aos longas que sequer chegaram na pré-lista. Um fato importante, no entanto, é que estamos falando de cerca de 90 países que enviam anualmente filmes para a Academia. Se até alguns anos atrás era possível fazer uma análise do perfil do comitê de filme internacional, a adição de novos membros e mudança no processo de seleção mudou muito isso. Era necessário ter visibilidade desde o circuito de festivais, especialmente no final do ano, e “Ainda Estou Aqui” conseguiu fazer uma caminhada brilhante. Passa por Veneza, Toronto, Londres, Nova York - apenas para citar alguns em meio a tantas projeções. A equipe do filme também sabia desde muito cedo que era importante colocar o longa para debate nos EUA. Me recordo que participei de uma sessão do filme no cinema da Academia, na abertura do Hollywood Brazilian Film Festival, e era impressionante a repercussão. Quem assistia ao “Ainda Estou Aqui” ficava envolvido e encantado com a Fernanda Torres, especialmente. O diretor entrou no circuito de entrevistas, a Fernanda e o Selton fizeram um trabalho enorme com sessões comentadas. Isso faltava no Brasil. É claro que essa visibilidade tem um custo alto - por isso se torna importante ter uma distribuidora parceira nos EUA com o know-how de campanha também. Durante todo circuito, ficava cada vez mais forte a impressão de que o Brasil seria indicado ao Oscar de filme internacional - e eu coloco a indicação da Fernanda e vitória no Globo de Ouro como fundamentais para gerar uma visibilidade extra e colocar de fato o longa como grande concorrente aos prêmios.
Quais são as chances do filme levar a estatueta em cada uma das categorias em que está indicado?
ALINE DINIZ: Acredito que as chances estejam cada vez maiores, principalmente em Melhor Atriz e Melhor Filme Internacional - principalmente devido à campanha do filme. As polêmicas envolvendo “Emilia Pérez” e a polarização que o filme tem trazido em suas críticas impacta bastante nesses meses de votação pré-Oscar, especialmente com “Ainda Estou Aqui” ganhando cada vez mais notoriedade nos veículos tradicionais estadunidenses. Os conhecidos trades, como Deadline, Hollywood Reporter e Variety, têm usado da popularidade global de Fernanda Torres para angariar acessos e likes, algo que também funciona a favor da atriz e do filme.
BARBARA DEMEROV: A chance do filme levar é grande, principalmente em Filme Internacional e Melhor Atriz, que estou apostando também. Apesar de a Demi Moore ser muito respeitada, a Fernanda Torres surgiu muito forte depois do Globo de Ouro. Depois disso, a campanha veio em uma onda muito positiva. Tudo está alinhado, parece que os astros se alinharam para ajudar o Brasil.
CYNTIA CALHADO: Na categoria de Melhor Filme Internacional, ele é o favorito. Já na categoria de Melhor Filme, não. Os favoritos são, em primeiro lugar, “Anora” e, em segundo lugar, “Conclave”. “Ainda Estou Aqui” fica do meio para o fim da lista. Na categoria Melhor Atriz a gente não consegue prever. Por conta das premiações recentes, os críticos colocam como favoritas a Demi Moore ou a Mikey Madison, e a Fernanda Torres em terceiro lugar. Isso são probabilidades. Se tivesse que construir um bolão (risos), essas seriam as apostas.
WALDEMAR DALENOGARE: Para filme internacional a disputa é com “Emilia Pérez”. O filme dirigido por Audiard teve grande prestígio na indústria cinematográfica, e a conquista do BAFTA mostra que mesmo as polêmicas recentes envolvendo o filme não foram suficientes para tirar esse favoritismo. Mas o momentum de “Ainda Estou Aqui” é tardio - especialmente em janeiro. O filme ficou em alta especialmente na Academia dos EUA no período das votações. Com cerca de 10 mil membros e um processo de internacionalização que nenhuma outra premiação tem, penso que é uma disputa que está em aberto.
Os outros dois prêmios são mais difíceis: é praticamente impossível olhar para uma vitória em melhor filme sem sequer entrar para uma pré-lista do BAFTA fora de Filme Internacional, por exemplo. Seria algo jamais visto na era moderna do Oscar entre sindicatos e associações de críticos. A falta de presença nos prêmios precursores, é verdade, pode estar ligada à menor visibilidade do longa fora da categoria de filme internacional até o mês de janeiro.
E melhor atriz é um caso especial. A campanha para a Fernanda mirava o Oscar. A ausência no circuito complementar de prêmios televisionados pós Globo de Ouro prejudicou a repercussão. Penso que a distribuidora fez um excelente trabalho de valorizar a atuação dela junto de uma maior visibilidade da atriz nos EUA com entrevistas e debates. A Fernanda tem um apoio grande da ala internacional, mas só isso não é o suficiente.
Esse Oscar tem uma narrativa de vitória forte - que é da Demi Moore, seja por conta da sua carreira (como ela diz no Globo de Ouro) ou pelo gênero (como pontuou no Critics Choice). O que ameaça a Moore é justamente o fato de um filme como “A Substância” historicamente não ter uma boa repercussão em Academias como a do Oscar e do BAFTA. Aí entraria a candidata que representa um filme favorito ao prêmio principal, que é Mikey Madison (“Anora”). Muitas considerações podem ser feitas a partir disso. O fato é que hoje em dia é muito mais difícil analisar o movimento do Oscar pelo processo de internacionalização. A Fernanda não é favorita ao prêmio, mas corre por fora com chances pelo grande impacto de “Ainda Estou Aqui”.
O que este Oscar pode representar para a indústria brasileira e a academia brasileira?
ALINE DINIZ: Acho que muita esperança sobre o futuro do cinema brasileiro acaba caindo nessa premiação em si, mas não podemos esquecer que qualquer campanha como essa que “Ainda Estou Aqui” está passando precisa de muito investimento. Tudo precisa ser pago por alguém e ter um estúdio que esteja disposto a bancar tudo que envolve a turnê global de divulgação é a chave da questão. Acredito que muitos outros projetos passados tinham potencial de alcançar essa glória, mas acabaram ficando bem sucedidos somente em território nacional exatamente devido a alta conta atrelada a isso. Minha esperança é de que o mundo passe a ver o cinema brasileiro com outros olhos, mas também é necessário que nós olhemos mais para o nosso próprio produto criativo.
BARBARA DEMEROV: Visibilidade. Mais visibilidade de empresários, de produtores, aqui e de fora do Brasil, que talvez fiquem mais interessados de produzir aqui no país. E também de catapultar nomes brasileiros lá fora, como é o caso do Selton Mello, que está neste momento gravando “Anaconda”. Então, é bem interessante como o Brasil está bem visto.
CYNTIA CALHADO: Para a indústria brasileira, este Oscar simboliza o reconhecimento internacional da altíssima qualidade do trabalho dos técnicos brasileiros. Para os produtores, a principal lição é: investir em visibilidade no exterior para fortalecer a valorização simbólica dos filmes. Para a Academia, o filme representa uma oportunidade de ser analisado como um estudo de caso sobre coproduções e estratégias de distribuição internacional.
WALDEMAR DALENOGARE: O Brasil enfrentou grandes problemas nos últimos vinte anos para realmente notar que era necessário montar uma estrutura considerável de apoio para seus filmes enviados ao Oscar. Existia uma resistência simbólica por parte de alas da indústria do cinema nacional que acreditavam que o Oscar era apenas uma validação nos Estados Unidos e de que o Brasil não precisava disso. Isso fez com que a metodologia de seleção do antigo Ministério da Cultura se tornasse defasada até mesmo quando comparada aos países vizinhos, como Argentina, Chile e Colômbia. O argumento de que "o cinema brasileiro é bom e não precisa de Oscar" virou até recorrente em discussões sobre o motivo pelo qual o país tinha dificuldades até para aparecer na pré-lista. Quando a Academia Brasileira de Cinema assumiu o processo, as mudanças vieram com sugestões de um grupo de profissionais interessados em pautar a relevância dos festivais e da distribuição internacional. Ainda assim, era muito pouco. O Brasil carecia de um importante debate sobre visibilidade no exterior pois não existiam intermediários: a Ancine não comprou essa pauta, e a Academia Brasileira de Cinema não tem uma atuação, por exemplo, no circuito de festivais nacionais para propor debates em torno do cinema brasileiro. Então penso que o caso de “Ainda Estou Aqui” é importante, pois a partir de agora a indústria nacional sabe o peso de uma indicação para o Oscar: mais visibilidade, uma possibilidade ímpar de lidar com novos projetos e co-produções internacionais. Isso não pode virar uma nota de rodapé. Penso que o Brasil precisa muito criar uma rede de apoio forte para os filmes que são selecionados para representar o país no Oscar. Obviamente não será todo ano que o candidato do país terá o apoio de uma distribuidora gigante nos EUA, mas seria importante a Academia Brasileira assumir uma posição de intermediária permanente no debate - não apenas ativa durante o processo de seleção - com participação em eventos de mercado e em festivais nacionais.
Como um todo, como você analisa esta edição do Oscar? O que os indicados representam e quais são os favoritos, na sua opinião?
ALINE DINIZ: Geralmente as temporadas de premiação acabam elegendo seus favoritos e vemos “Anora”, “Conclave”, “A Verdadeira Dor”, “A Substância” e “O Brutalista” como vencedores em categorias diversas. Vejo neste ano uma diferença de opinião dentro das guildas por trás dos prêmios, uma inconsistência boa, algo que não acontecia há algum tempo. É gostoso ser surpreendido quando há um favorito em evidência e outro concorrente leva o prêmio.
CYNTIA CALHADO: A safra de filmes do Oscar 2025 é muito boa. Olhando para as temáticas dos filmes, dá para dizer que a seleção tem um tom progressista. “Anora” é o favorito. No entanto, devido ao sistema de votação preferencial na categoria de Melhor Filme, “Conclave” pode levar a estatueta. Como o Oscar é fortemente influenciado por campanhas e não apenas por mérito, “O Brutalista” provavelmente não receberá o reconhecimento que merece. Do ponto de vista artístico, é o melhor filme entre os dez indicados.
WALDEMAR DALENOGARE: Esse é um Oscar diferente. Não tem um favorito no circuito de festivais, ou pelo menos um que se posiciona como o candidato a ser derrotado. Temos amostragens diferentes, até que o PGA faz um apontamento importante para “Anora”. O fato da Academia mais uma vez indicar ao prêmio principal dois filmes em língua não-inglesa é extremamente relevante, e penso que é algo que vem para ficar com a maior presença de membros fora do eixo EUA - Reino Unido. E, diferentemente do ano passado, com “Oppenheimer” dominando, esse é um Oscar que dá possibilidades para várias leituras diferentes quanto aos caminhos da Academia. “Anora” por vencer o PGA surge como um longa que pode aproveitar o método preferencial. A disputa de direção fica entre Baker (vencedor do DGA) e Corbert (vencedor do BAFTA). A categoria de melhor atriz é a mais disputada do prêmio, mas penso que o BAFTA consolidou favoritismos: Brody para ator, Culkin para ator coadjuvante e Saldaña para atriz coadjuvante.
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